quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Carta aos meus trinta anos.




25 de novembro de 2010.

(primavera, tempestades surpresa, tempos de dureza, faxina de bala no RJ e eu aqui dando milho aos pombos.)


Espero que você esteja bem. Espero que esteja trabalhando com o que gosta, e antes de tudo, apaixonada pelo ofício. Espero muitas coisas de você. Não vou mentir que hoje ando em maus lençóis, mas você já está costumada, espero que tenha conseguido lidar com as frustrações e com sua aparência. Muitas pessoas esperam de você uma boa desenvoltura profissional. Não me dê o desgosto de te ver prostrada à um trabalho frustrante. Não, eu não admito te ver infeliz e sem uma boa conquista na vida. Tenha uma boa imagem dos seus 23 anos. Saiba que você sofreu por uma paixão mal resolvida por muito tempo. Você perdeu muito tempo. Você também foi bastante irresponsável, tão irresponsável a ponto de comprometer toda sua vida. Sim, embora não aceite, ele gostava de você, te traiu, você sofreu um bocado, mas ele gostava de você, principalmente do seu corpo. Coisa que eu aposto estar tirando uns 10 minutos de sono da sua rotina. As gordurinhas agora são inimigas declaradas, eu sei, eu sei. Acredito no seu bom senso e que você está fazendo uma dieta. Você não me decepcionaria, han? Gosto da sua autonomia, mas você precisa entender que esta idade pede de você definições, como um marido, uma casa, uma estabilidade financeira, talvez um carro, um diploma. Você conseguiu isso tudo néh? Antes de eu começar a revisar esta auto-carta, peço que leve em consideração que pedi a você pra guardar uma ponta da sua alegria original. Não se deixe levar pelo poente, pelo gabinete, pelos dias cinzas, eu sei que você sofre com isso. Os cabelos brancos devem ter aumentado em gênero, número e grau. Eu sei que você se desespera, mas, calma. Logo logo você vai se parecer ainda mais com sua mãe. É um processo gradual. Não me faça as merdas que ela fez, não repita cagadas, por favor. Respeite sua vida e vá ao bar comemorar, seja lá o que for, com um belo suco de frutas. Peça um de graviola que é bom pra sua saúde. Não se torne uma alcoólatra, uma viciada, não me vá arrumar doenças emprestadas. Espero que tenha resolvido crises de identidade, que esteja vivendo A SUA VIDA não a de estranhos emprestados, como doenças. Ok? Preste mais atenção nos cruzamentos, aposto que o trânsito nesta cidade vai virar um inferno. Aliás, eu aposto que esta cidade se tornará “O portal do inferno”. Mas você será capaz de sobreviver a isso. Eu acredito em você. Não descarto a possibilidade de você estar morando em outro lugar. As pessoas daqui a 7 anos devem estar mais envelhecidas, espero que menos amargas. Você cultiva o bom gosto néh? Eu sei que você é chata, perfeccionista, niilista de padaria nos domingos de manhã. Mas eu te desejo felicidade, sério, se você não encontrou um bom homem – aquele dos seus sonhos você desencanou, sei há tempos disso – que você esteja sexualmente bem resolvida e comida. Morro de curiosidade pra saber como vai ser a tendência sexual da época. Os gays vão poder ter filhos? Ahhhnnn só daqui a 7 anos!!! Ansiedade. Ahhnnn!!! Sobre ansiedade, auto-conhecimento e auto-medicação: você anda tomando pílula pra dormir? Olha, eu seria capaz de te dar uns tapas por isso. Lembra que você é fraca pra vícios e aposto que ainda continua pobre. Então entenda que você não pode alimentar vícios, sua saúde não é de ferro, nem você. Espero que tenha visto boas coisas, acompanhado o melhor da atividade da sua profissão, será que você continuará trabalhando com teatro? Lembre-se que é ridículo uma pessoa de trinta anos sem uma definição concreta da vida profissional, citei no começo da carta, eu sei, você se repete com facilidade. Faça exames de rotina. Vá mais ao cinema. Conviva melhor com sua família, mas não carregue os problemas deles pra sua vida, certo? Você sempre pôde escolher, sempre pôde mudar as coisas ao seu tempo e adaptá-las. Juízo garota. Aceite a velhice. Sério. Mas não morra feia. Por favor. Vou confessar a você que faço uma imagem generosa de você aos trinta. Acredito que vá estar um mulherão, no auge da maioridade, e gostosa, tipo a Sônia Braga. Eu quero pra você a elegância da Sônia Braga. (risos). Sua cara é redonda, já usa óculos, espero que não sejam do tipo fundo de garrafa. Hoje a cegueira te incomoda, mas você também queria o quê? Anos a fio em frente a uma tela iluminada, a raios intransigentes e leitura visual, tinha que ficar cegueta mesmo. Suco de cenoura. Suco verde também. Espero que não tenha perdido o hábito. Já estou me repetindo e ficando chata. Mas, olhe bem pra você, a hora que puder, e no espelho reconheça o que o tempo fez de você, mas principalmente o que você fez com seu tempo. Não leia livros de auto-ajuda, pelo amor de Deus! E nem se converta a nenhuma seita satânica, não ande nua pela avenida e nem convença o carteiro a transar com você. Meu deus! Não cometa loucuras irremediáveis. Se você tiver filhos, que seja um, somente, não o mime e tenha pulso. Eduque-o da melhor maneira e tenha sempre em mãos umas balas para momentos de leveza. Não cultive o mal humor, esse é destrutivo e afasta as pessoas. Plante uma árvore, acredito que a situação ambiental ficará mais crítica, mas você fez a sua parte. Vou me despedir de você sabendo que está em boas mãos. Seu senso crítico está mais afiado, eu sei... deve ter rido. Mas lembre-se que você já foi bastante idiota, espero que tenha se vacinado.
Lá ia esquecendo de falar da sua fome de mundo. Espero que você ainda tenha fome de vida. Eu sei que você quer viajar e vasculhar uns cantos do planeta, acontece que você é pobre, sonhadora e inconsequente. OK. Até meus trinta anos eu preciso ter ido a NY, comprar uma camisa com uma legenda engraçada, tomar um café expresso em alguma cafeteria noir e guardar uma flor do Central Park e um ingresso da Broadway... se não for até os 30, que seja até os 40! Sonhar é de graça. Mas se você não puder ir a NY, vá para Paris, visite tudo, vá ao lago que a Amelie Poulin jogava as pedrinhas e jogue uma também. Se puder, vá ao bar em que ela trabalhava. Muita fina e vestindo vermelho e verde. Com um ar noveau, por favor. Você vai ficar muito contente com isso, eu sei. Tire fotos em frente ao Moulin Rouge e à clássica Torre Eiffel, traga um sachet de açúcar de um café Parisiense. Só pra lembrar. Indo à Itália... visite Roma, Firenze, Coliseu e Piza. Coma uma pizza e guarde a conta. Pronto, era só isso por enquanto.

Um grande abraço, votos de sucesso, a você tão indispensável a mim.

Eu, com 23.
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sábado, 20 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

sobre a afabilidade de um potro misógino e picadas de inseto no calcanhar

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eu só não aceito traição e falsidade. tiro no pé, tapa na cara, soco no olho, pode. a quem me perdeu e a quem me encontrou. se não posso fazer ninguém contente é por que meus pulmões cristalizaram-se em tampos de zinco.
me entrego à sorte de qualquer temporal. perco o amor original. arranco páginas de livros. rasgo papéis com picardia. entreato cordões aos pés e levanto um altar de suicídio. para que todos que divergirem com Vênus e atiçarem Urano saiam queimados em labaredas incandescentes.
que os astros sejam testemunhas de vários atos de fé. de fogo e queima tóxica. sal e lentilhas douradas. Fênix anda sobrevoando meu telhado.

ao ofício, ao prazer, às expectativas, ao mercado, ao lixo, às vaias, às baias, aos empurrões,
aviso que qualquer frustração está fora de cogitação. quero com todas as minhas forças assisti-los em janeiro. quero quero quero quero quero. muito.

vou alí pedir um milagre. já volto.

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010


às vezes sinto-me uma caixa registradora.


nada além.
-homens... quando não mudam o endereço, mudam de mulher... todos iguais!

fazia parte do grupo de mulheres descrentes. a despudorada devota. que em dia de missa saía a seduzir os pagens. alimentava uma fantasia quase carnavalesca de Judas em sábado de aleluia. ela e vários meninos na sacristia experimentando o delicado pecado original. sua imaginação era prodigiosa para concupiscências.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dolores e o aroma da morte


mulher insatisfeita. essa era Dolores. não se sabe ao certo o motivo que a levou cometer suicídio na principal avenida da cidade. alguns vizinhos alcoviteiros alertam aos investigadores. que um tórrido romance outrora tenha chamado atenção quanto aos desvios de conduta da moça alegre e recatada. acreditava em duendes e ações prolixas cheias de boas intenções, salvaguarda de bons motivos. cega. absolutamente embebida em paixão. cultivava flores tristes. homens rotos. vestidos azuis. do anil ao ciano. com maestria de signos. luzes e convites. já a chamavam de "a passeadeira" dava de ombros como resposta. não aceitava aquela reprovação. preferia as esquinas perdidas ao destino das moças em estado decretado de infelicidade póstuma adquirida em vida. as casadas. eram pra ela uma espécie de gente que não mereciam respeito. Suzanna, por exemplo, morria umas três vezes em cada fim de tarde a esperar o marido Jorge. Que a lembrava uma outra espécie de homens. os oportunistas do prazer. que nenhuma mulher em sã consciência deveria dirigir ouvidos. Dolores consentiu uma única vez com as prevaricações de Jorge no contrato nupcial. Esta jovem senhora no auge de suas 30 sedutoras primaveras carregava junto ao seio a marca do amor. uma quelóide imensa. que traçava o início e o fim de um conturbado romance. com um homem casado. outra sub espécie.

domingo, 31 de outubro de 2010

filamento de tempo. são as partículas do segundo. que caindo uma a uma junto à tarde, embebida em ruídos e canto. uma cigarra. um violoncelo. grave canto da morte. não consigo encorajar seu ânimo. você acorda. e não quer. a tarde. o ruído. a tarefa. o anúncio da passagem do tempo. os degraus das horas que caíram. na sua tarde com chá de sono e sofá de algodão.

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