quarta-feira, 5 de maio de 2010

céu negro


ajustando o volume para nível máximo. ajeitando o cabelo no penteado errado de todos os dias. cronometrando os ponteiros do relógio da cozinha. salteando umas poças d'água sem salto, nem glamour. não sei o que aconteceu ontem. não sei onde estou indo. não consigo mais colocar meus pés no chão. mas eu tento. eu juro que eu tento. às vezes com todas as minhas forças. enforcadas a esmo. não sei o que aconteceu. não consigo falar com você e perdi meu telefone. você pode ter morrido. ou eu morri pra você. em alguma possível esquina. olha pra mim, não precisa falar a verdade, só olha pra mim e fala alguma coisa. eu já dependo disso que você às vezes chama de amor, prefiro tachá-lo de carinho, mas tudo bem.

terça-feira, 4 de maio de 2010

abóbora sagrada

é só um título de efeito. "já passou, já passou... como a sombra que sumiu.. atrás do muro.." sem explicar o contexto ninguém vai entender nunca. sem amansar esse cavalo louco, alvo como a neve. aqui dentro. impossível cavalgar. peço desculpas, é uma deficiência. quando as coisas falham. quando não tenho desculpas. eu peço um novo sol. queria ser consolada com afeição paterna. entendam, fui órfã este tempo todo. meus pais falharam. O Estado a Igreja a família são pesos insuportáveis. eu não precisava chorar agora. também não podia me espantar com fenômenos desinteressantes. ainda preciso apreciar o brilho da calêndula sagrada. da flor de Lótus. do imenso nada e seus exponenciais. às vezes eu não tenho pra onde correr. e não consigo transpor essa merencórea paulatina às avessas. me responsabilizo por cada vocábulo. acredite. tento traduzir. tento entender também. e fico no produto mal acabado. parece choradeira de nenê bobo. um dia páro de pedir desculpas ao mundo. isso é nojento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

tato e cerejas


você sonha sempre com aquela doce história dos velhos amantes. eu. às vezes deixo escapar um sorriso. percebo que existe uma sede entredentes. traduzível. escolho milhares de vezes a mesma opção. um erro. como uma miragem. nos resolvemos. em sobreposições. arrufos e um leve delírio. corpo. matéria. plural. líquido. escapo com maestria dos inquisidores. são velhas, mordomos, sapos e megeras que espreitam a felicidade alheia. resolvi guardá-lo no mais escuro armário empilhado. local seguro. e nem confesso minha fraqueza. ao suspeitar qualquer traição. ao ligar fora de hora com o pulso em batidas vertiginosas. medindo cada decibel atravessando o tempo, ocupando o espaço. ao ficar com a dor do dia seguinte amansada por uma estabilidade gasosa. queria ditar vocábulos apaixonados em voz alta. ou mesmo telegrafar uma carta de amor. mas. mas. você não entenderia. preferi deixar-nos a sós. com nossa sede.
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segunda-feira, 26 de abril de 2010

processo e dor de cabeça


se você começa devendo a quem quer que seja. Deus ou a qualquer diabo, já é um problema. [conversa metafórica] eu vi o que você fabricou como modelo. senti a necessidade de catar uns milhos, alimentei as galinhas enquanto você piscava. não quero rir de nada pra não te prejudicar. acontece que mora um Deus no canto da pia. e você ainda não percebeu a gravidade presente no suéter de lycra da lua .[isso é muito brega!]. eu vou deixar você cometer toda sorte de pecados, prometo ser conivente com suas mentiras. e tentarei montar. grão a grão. seu Resort Planet. vocês riram demais enquanto virei as costas. a mão que constrói é a mesma que destrói[lembra?] tudo no presente do indicativo. e eu não vou dar corda ao que não me quer bem [cláusula primeira]. resolvi umas ingrisias. minhas. e comecei a não deixar as pessoas se tornarem responsáveis por minha imensa frustração. comecei a ver outras pessoas nas mesmas que vinham por aquela rua. e numa solução fácil desmantelei um monte dentes. reciprocidade seletiva. é tudo uma questão de quem tem a melhor virtude e qual a validade dos caninos de ouro em cada boca.
eu resolvi deixar umas coisas perdidas no caminho. talvez para conseguir preservá-las.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Deus na contra-mão


eu sei o que você quer. polaridade e contradição. nada relacionado a causas e efeitos. é uma questão vertical. divina. e a metamorfose que você tanto procura é mais simples do que imagina. nos livros não cabem libélulas. tampouco casulos e aovéolos luminosos. não nos ensinam nas escolas a tratar o tempo e a decantar flores. nem a banhar bebês e acolchoá-los com material sintético. lhe passam instruções e vetores. na frieza você veste um suéter da estação e liga o ar artificial. na escola tudo é muito simples. não lhe ensinam a lidar com os mortos. não lhe ensinam a ter uma boa desenvoltura social e entrar em acordo com seu destino (muito mal explicado por sinal). talvez eu me sinta desencorajada a abrir sapos e desmaie ao ver insetos em compota. sou fraca até pra convencer sobre as minhas necessidades. e quando ouço a voz da inquisição tremo de medo. com toda carga nervosa acelerada em potencial. talvez você também queira chegar no paraíso além mar. além do bem e do mal. talvez. você consiga extenuar essa descarga elétrica que lhe toma pelos ombros, desce aos joelhos e dilata vasos sanguíneos. já ouviu falar do suor sagrado? da mão pesada de Deus? do olho que tudo vê e d'aquele que tudo sabe?

você quer on.i.presença. talvez você queira ser Deus.

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