terça-feira, 25 de agosto de 2009

um copo de medidas e três facas


pra amenizar, vou dizer que as facas são de mesa. não gosto de ter que usar meu tom de ameaça.
ao conversar com ela outro dia, percebi que ainda alimentava uma esperança. é um desejozinho delicado, uma fé de faca cega. a luz enquadra um take de filme. documentário confessional. sujeito a um pulso cortado. poesia de subterrâneo. e umas aliterações. A mágica presença das estrelas (vide Mário Quintana). uma ode ao não dito. ela sonha com papéis voando na redação. com relógios que explodem. um chuveiro ligado toda uma vida. uma língua na mesa. produto de corte. faca de mesa. uma boa medida na vida. um copo quase cheio. uma vida com plantinhas na calçada. só uns minutos de silêncio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009








por um marshmallow


consegui outro dia:


um pedaço de terra. uma tira de céu. framboesa murcha. sililóquio amanhecido. um dois trê tiros. palmas de algodão. chá de melancolia. morango frito. salada de lagarta. saltar o equivalente a minha altura. salgar um peixe. catucar o fundo de um poço. secar uma lagoa de lágrimas.

tornar-me pequena encolhida no canto da cama. chupar uns limões fazendo cara boa. fazer uma limonada da vida. soltar o cabelo. gostar de alguém. morrer. ressucitar. emagrecer. ir embora. andar & cagar. cegar e arrumar um parabrisa. chatear uma mosca. subir uns telhados. colher umas libélulas. saquear um monge. envelhecer de causa e morte natural. jogar serpentina. carnaval em velório. cuspir meio metro além. vomitar a janta no café da manhã. fazer feio na congregação. tomar veneno e não morrer. prender um passarinho. arrancar unhas e dentes.

sapatear em parede-de-meia. chorar a morte de um estranho. não me importar. desejar um fim menos trágico. cair na lama. sujar meus sapatinhos brancos. entortar minha bailarina. querer morrer pra não ter que suportar mais isso tudo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

o trem que vai com meu avô.


quando era pequena. do tamanho dum botão. numa caixinha mágica guardei uma delicatessen. um fragmento de memória. filete de lembrança. meu avô e seu último adeus. era interior de Minas. terra vermelha. férias de escola. ele se trancava no quarto pra ouvir música sertaneja. cuidava da criação no pasto como se fossem seus filhos. na vila do adeus. um lugar que nem volta mais. estrada morta. meu avô ficando pra trás. o trem na estação. movimento e fumaça. vertigem. saudade flutuante. ouvi uma balada triste cantando Romaria. minha mãe chorando. minha mãe não chorava na frente de ninguém. igual a ele quando se trancava no quarto. viu seus filhos casarem. teve um filho morto de acidente. verdade em vida. uma camisa e uma dentadura pra ir à rua. um par de sapatos novo. chinelas e uma bermuda rasgada pra trabalhar no pasto. não sabia rezar pra Deus católico. casado que dormia em quarto separado. e minha avó que perdou a traição, mas não aceitou o homem. o Zé João faz uma falta fatigada. céu que desmaia. foi infarte. um barco de saudade fulminante, daquele velhinho limpo de cabelos brancos.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Deus adora brincadeira...

num plano próximo à realidade me peguei dormindo sozinha outro dia. as notícias... eu ando digerindo junto com café sem tempo pra edição. só uma pergunta mesmo. um pouco de sangue, nada demais. quando Deus me gerou no ventre de minha mãe [vide bíblia] não avisou do trabalho de crescer. minha mãe ficou um pouco triste, mas ela lembrou que nem tudo é do jeito que a gente quer. fez uma comparação ruidosa sobre uns anos atrás e agora e do quanto é preciso ser forte pra sobreviver. engraçado. agora fabrico uns vasos de cerâmica. uma lápide de gesso e arrebento um sisal. na sequência. não queria fazer ninguém triste. nem sumir do mapa. deixo endereço, cep e selos no lugar. não me percam, por favor. ando atravessando. atravessada. espaçada.escapando.fugindo.fugaz. meio intrépida, meio suja, meio vazia, meio adulta, meio criança, meio boba, sina de palhaço, paixão triste, samba rarefeito, anestesia geral. sei lá. só uns 'sonetos de Shakespeare' explicam.

quando eu disse que era louca ninguém acreditava.

quando saí de casa hoje com a mala na mão uma vizinha perguntou:
-quando vai assim... volta?

eu não soube responder.
acho que eu preciso de tempo.

e umas boas palmadas, rs.



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